Especialista Pede Trabalho Longo Na Base Para Brasil Virar Potência Olímpica

João Paulo Diniz critica trabalho pontual para Olimpíada em casa e pede definição de papel de cada entidade, além de investimento para aumentar número de praticantes.

O Brasil não conseguiu atingir a meta inicial do Comitê Olímpico Brasileiro de estar entre os dez primeiros no ranking de medalhas, nem atingiu as 27 medalhas previstas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Foram sete ouros, seis pratas e seis bronzes. Ao fim da Olimpíada, a pergunta que ficou foi por que o Brasil não conseguiu bater a meta e nem ser uma potência olímpica. Em entrevista ao "Tá na Área" que está exibindo durante essa semana a série de reportagens "Esporte e Negócio", João Paulo Diniz, presidente da Componente e Conselheiro da Península Participações e do Instituto Península, destacou o planejamento a curto prazo brasileiro, além do foco em poucos atletas. 

- As políticas públicas que foram feitas, até mesmo para eventos esportivos, foram muito pontuais. Elas não trouxeram legado. Os programas governamentais que foram feitos, Brasil Medalha, Bolsa Pódio, eles estavam premiando e desenvolvendo aquele atleta que já estava lá. Agora, realmente, aquele trabalho de longo prazo, de pegar desde o começo, aumentar o número de praticantes...como você consegue obter sucesso no esporte de alto rendimento? Aumentando o número de praticantes. Qualquer esporte que você consegue crescer a base do número de praticantes, você consegue desenvolver, através de peneiras, quem vai chegando lá e desenvolve a ponta, que é o alto rendimento - afirmou. 

Além disso, Diniz ressaltou o papel do ídolo na consolidação de um esporte. Para ele, o atleta de sucesso estimula as crianças a praticarem esporte, fazendo com que o número de praticantes aumente e, assim, ampliando as possibilidades de desenvolver mais atletas de alta performance.

- O importante é você realmente criar esse espelho para inspirar as pessoas a praticas esporte. E para que praticar esporte? Para você conseguir trazer esses valores para sua vida. E para você poder dar a opção também para criança na favela, criança que não tem recurso, para falar que tem outra opção de vida, que se for por esportes, pode não ser o melhor do mundo, mas vai conseguir trilhar um caminho, é uma profissão, e se não chegar lá, pela menos aprendeu muita coisa. Acho que é isso que falta. Quando você consegue aumentar a base, você consegue trazer, dar essa outra opção social - disse.

Confira a entrevista completa na íntegra:

No Brasil, a gente vê um investimento muito grande em atleta de alto rendimento. Mas falta ainda muito investimento na base. Isso tem a ver com política pública?

As políticas públicas que foram feitas, até mesmo para eventos esportivos, foram muito pontuais. Elas não trouxeram legado. Os programas governamentais que foram feitos, Brasil Medalha, Bolsa Pódio, eles estavam premiando e desenvolvendo aquele atleta que já estava lá. Agora, realmente, aquele trabalho de longo prazo, de pegar desde o começo, aumentar o número de praticantes...como você consegue obter sucesso no esporte de alto rendimento? Aumentando o número de praticantes. Qualquer esporte que você consegue crescer a base do número de praticantes, você consegue desenvolver, através de peneiras, quem vai chegando lá e desenvolve a ponta, que é o alto rendimento.

Você acha que ainda existe um gap (vazio) muito grande dentro das confederações? Essa relação ainda é muito difícil entre o governo, a confederação, o atleta? 

Eu acho que o principal, que é uma coisa que eu luto e muita gente luta comigo, é o sistema nacional do esporte, definir qual é o papel do governo federal, qual é o papel do governo estadual, qual é o papel dos municípios, como é um pouco na educação. Então você conseguir definir isso é muito importante. Definir exatamente até aonde o Ministério do Esporte vai, qual é a atuação do Ministério do Esporte junto com o da Educação, porque eu acho que eles têm trabalhado de uma forma paralela, mas acho que eles têm que trabalhar juntos. Eu acho que tudo isso ainda tem que mudar muito. E para complicar tudo, eu acho que a parte política do esporte tem que ser reestruturada porque hoje em dia as federações, as confederações, elas são montadas de uma forma que é muito difícil você mudar, transformar. Você falar: “não tem gestão”. Tem gestão, mas ela ocorre de uma forma que você não consegue mudar. Então essas regras, essas leis, precisam ser mudadas. Você realmente montar uma gestão empresarial do esporte, pensar com a cabeça do empresário. E isso aí está faltando. Não adianta você achar que do dia para a noite isso vai acontecer. Você vê o maravilhoso trabalho que a Grã-Bretanha fez. Mas onde ela começou esse trabalho? Quatro anos antes de eles sediarem a Olimpíada de Londres. E onde foi o resultado final? Não foi em Londres. Foi agora no Rio. Eles ficaram em segundo lugar. Então é um trabalho de longo prazo. O Japão vai ter Olimpíada daqui a quatro anos. Vê quantos japoneses já tinham nas finais, vê como eles estão se estruturando o esporte olímpico dentro do país. Então isso faltou um pouco pro Brasil. Esse acompanhamento de longo prazo faltou. Acho que foi feita uma coisa muito imediatista, principalmente nesses últimos quatro anos, que deu aquele desespero de já que não vamos formar, vamos apoiar mais esse atleta ou aquele ali. Então não foi uma coisa pensada de longo prazo. 

Você acha que existe um modelo de gestão ideal? 

A gente fez um trabalho pontual com atletas que deu muito certo. Desde 2000 que a gente pegou seis atletas e levou para fazer a competição de triatlo olímpica, quando foi o primeiro ano da modalidade na Olimpíada. Depois a gente teve o Vanderlei Cordeiro de Lima, que foi terceiro na maratona, teve a Maurren Maggi, que foi a primeira campeã olímpica (brasileira) no salto (em distância). Então, todo esse trabalho que a gente fez, o Marílson Gomes dos Santos, que foi bicampeão da Maratona de Nova York, foram trabalhos pontuais. Meu pai (Abílio Diniz) me falou: “João, a gente foi tão assertivo nisso aí, mas com a Olimpíada aqui no Brasil queria poder fazer mais. Mas como a gente pode ajudar mais gente? ”. Então surgiu a ideia, junto com o Irineu, de montar o NAR (Núcleo de Alto Rendimento), que aí a gente conseguiria através de apoio a várias modalidades, dos treinadores, a gente conseguiria atingir muito mais gente e muito mais esporte. Porque se a gente fosse apoiar as pessoas desses 75 esportes que a gente tem aqui dentro, não tem dinheiro que não acabe. Então a gente resolveu fazer de uma forma que através desses treinadores que temos aqui a gente atingisse vários esportes. 

Como é o procedimento?

O procedimento é o seguinte: nunca chega o atleta direto. Sempre através da federação, da confederação ou os técnicos veem aqui ter uma conversa preliminar com o nosso pessoal, e a gente desenvolve a modalidade através do corpo técnico dos esportes.

E esse trabalho deu muito certo né? Robson Conceição (ouro no boxe), Mayra Aguiar (bronze no judô), Rafaela Silva (ouro no judô), Baby (bronze no judô), Maicon (bronze no taekwondo).

Tem dado certo. E a gente tem conseguido contribuir né. Não é a gente sozinho que faz sozinho esse trabalho, mas a gente consegue contribuir para dar aquele centímetro a mais, aquela força a mais que eles precisam para dar um golpe. A gente consegue desenvolver essa pequena diferença que faz o cara ganhar uma medalha olímpica ou não ganhar né.

E a gente tem os para-atletas também né? A Terezinha Guilhermina (prata e bronze), Alan Fonteles (prata), Yohanson Nascimento (prata), todos do atletismo.

A gente também desenvolveu um trabalho muito bom com a confederação paraolímpica, e eles vieram através da Confederação. Então acabou sendo todas as modalidades paraolímpicas e a gente conseguiu atender de certa forma aqui. E multiplicou muito mais que os atletas não paraolímpicos.

Você acha que faltam ainda muito ídolos no Brasil ou que a gente tem dificuldade de construir esses ídolos?

O importante é você realmente criar esse espelho para inspirar as pessoas a praticas esporte. E para que praticar esporte? Para você conseguir trazer esses valores para sua vida. E para você poder dar a opção também para criança na favela, criança que não tem recurso, para falar que tem outra opção de vida, que se for por esportes, pode não ser o melhor do mundo, mas vai conseguir trilhar um caminho, é uma profissão, e se não chegar lá, pela menos aprendeu muita coisa. Acho que é isso que falta. Quando você consegue aumentar a base, você consegue trazer, dar essa outra opção social.

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Foto: Getty Images