Treinador Ou Professor De Futsal?

O blog do Futsal Rio vem propor um tema que sempre entra em discussão, dentro do futsal e nos esportes em geral. A presença de um professor formado em Educação Física no cargo de treinador de futsal, nas categorias de base, é necessário ou essa formação formal não é o mais importante?

O tema gera diferentes visões e é muito extenso, portanto vamos abordar alguns aspectos que, na minha opinião, são mais revelantes. Pra começar, a universidade forma o treinador? Podemos ver nos currículos dos melhores cursos de educação física que o grande objetivo é a formação do professor, generalista, que possa abordar as inúmeras vertentes do curso, e a partir da sua graduação, buscar sua área de especialidade.

Então a resposta pra pergunta acima é não, correto. Isso mesmo! Mas esse não, gera uma outra pergunta. Como diretor de um clube de futsal, você quer um treinador ou um professor para treinar e comandar a sua equipe? Talvez a grande questão sobre o tema seja essa.

A universidade forma o profissional, abrangendo não só os aspectos específicos da atividade física (sim, o futsal é uma atividade física, com princípios muito parecidos com todas as atividades que existem por aí), mas também conceitos fundamentais como didática, psicologia, filosofia, sociologia, tão importantes como saber o que é um passe ou um chute dentro da quadra.

Vamos a outra realidade fora do país. Indo aos países europeus e aos Estados Unidos, vemos que por lá, essa formação para treinadores não está na faculdade, mas em cursos específicos para tal fim, em sua maioria, promovidos pelas federações regionais e nacionais do desporto. Bom? Ruim? Temos grandes exemplos de ótimos profissionais que não são professores, mas graduados nesses cursos, tanto na base como no alto rendimento.

Não podemos comparar com a nossa realidade porque não temos esses cursos por aqui. A recém formada Escola Nacional de Treinadores de Futsal (ENTF) está colocando um modelo brasileiro, mas a prerrogativa para poder ser aluno é ser licenciado pelo Conselho Federal de Educação Física (CONFEF), dentro de suas estruturas regionais (CREF). Então, é uma especialização para professores? Mas recebe os provisionados habilitados pelo conselho, que por sua vez, tinha um projeto de curso, nunca posto em prática ou, no mínimo, não como planejado! Dicotomias de um país contraditório.

E olhando o conteúdo programático dos cursos do exterior, um aspecto em comum salta os olhos. Conceitos como didática, aprendizagem motora, crescimento, desenvolvimento corporal, psicologia são muito trabalhados. Futsal? Claro, passe, quadrante, padrão, chute, marcação, tem tudo isso lá, mas não é o principal.

Enquanto exigimos uma melhor educação de um modo geral, e algumas funções dentro da sociedade nunca serão abordadas como a do professor/treinador (imagina um médico sem ter uma graduação em medicina???), conseguimos conviver com práticos atuando como se tivessem conceituação teórica para tal. Mas o esporte tem uma coisa que talvez seja só dele. Resultado imediato! Acho que o exemplo Bernardinho, super campeão no vôlei e economista de formação, ilustra muito bem esse processo. Mas na base, o resultado tem que ser imediato?

Mas tem um elemento fundamental que por muitas vezes fica fora disso tudo. Os pais do jovem aspirante a atleta. Quando eles escolhem a escola para matricular o filho, tenho certeza que se preocupam com os professores que estarão por lá. Quando vão escolher o pediatra, buscam o melhor. Quando selecionam a van que irá transportar o filho à escola, certificam-se que é uma van legalizada e o motorista registrado dentro da lei. Por que, normalmente, essa preocupação é bem menor quando decidem pelo clube que vão permitir que ensine o futsal para seu filho?

Será que se uma cobrança dos responsáveis aos diretores dos clubes, faria uma mudança nesse cenário?

A busca por melhores profissionais tem que sempre existir, e não será um pedaço de papel que irá definir essa questão. Mas é, e tem que ser o ponto de partida. Os ex-atletas são e sempre serão bem vindos, mas devem buscar a formação necessária e obrigatória para exercer a função. Não é porque você anda de ônibus por 20 anos que está capacitado a dirigi-lo.

No futsal, principalmente o carioca, ainda temos mais um ator nesse cenário. O pai treinador. “Mas eu joguei bola!” Ok, bom que você teve uma infância com o esporte dentro dela. Mas, sem entrar no componente emocional disso tudo, segue uma outra analogia. Não é porque você andou de bonde no século XX, que pode comandar o VLT de hoje em dia.

Qualquer pessoa interessada em militar nesse mundo do futsal, primeiro busque a capacitação. E essa capacitação passa pela faculdade, não tem como mudar isso, nos dias atuais. Tem outros caminhos pra buscar o conhecimento? Claro! Mas todos eles estão dentro do meio acadêmico. E pra terminar, um recado aos professores. Não é um diploma que atesta sua qualidade, mas a sua prática diária, levando e aplicando os conceitos que aprendeu pra conseguir esse mesmo diploma.


FUTSALRIO

Blog

Foto: divulgação