A Idade E As Competições De Ginástica Artística Feminina

A temática da iniciação esportiva e os assuntos a ela relacionados, como a idade ideal para o início da participação em competições, vêm sendo muito discutidos por profissionais da área. Dentre as modalidades esportivas, nenhuma outra tem sido tão criticada como a Ginástica Artística feminina, quando o tema é a iniciação precoce no ambiente competitivo (THEINZ et al, 1993; SOBRAL, 1993).

Ao acompanharmos os torneios no decorrer dos anos, vamos perceber que a média de idade das ginastas veio diminuindo drasticamente. Nas décadas de 30, 40, 50 e 60, eram as mulheres maduras, muitas delas acima de 30 anos, que competiam nas Olimpíadas e outros torneios oficiais. No início da década de 70, foram surgindo as “meninas” da Ginástica Artística que não eram mais mulheres maduras, mas crianças ou pré-adolescentes.

Segundo Staub (1986), que organizou dados de diferentes estudos os quais pretendiam constatar as médias de idade e estatura em diferentes competições oficiais, ocorreu um declínio nas médias das duas variáveis ao longo dos anos. Em um estudo mais antigo relacionado, referente aos Jogos Olímpicos de Tóquio, as médias encontradas foram 22 anos e 7 meses para idade e 157cm para estatura; no último estudo relacionado, referente ao Campeonato Mundial de 1985 (Montreal), os dados encontrados foram 16 anos e 8 meses para idade (± 1 ano e 4 meses) e 155.2 cm (± 7.6) para estatura.

Acredita-se que a evolução do próprio esporte e dos métodos de treinamento, associados aos resultados de investigações científicas, influenciaram na mudança da faixa etária de ingresso das ginastas no ambiente competitivo.

O grande marco da Ginástica Artística foi o surgimento de uma menina de 14 anos de idade, em 1976, que surpreendeu o mundo com suas acrobacias fantásticas e coreografias graciosas. Absolutamente perfeita, Nadia Comanecci recebeu sete notas 10 em um máximo possível de oito. Ninguém conseguia acreditar como uma “criança” seria capaz de realizar tal façanha.

Naquela época, a idade mínima para a participação nos torneios internacionais da Ginástica Artística era de 14 anos. Como conseqüência deste fato, passou-se a acreditar que as jovens ginastas que quisessem atingir uma performance “perfeita” deveriam começar muito cedo nessa carreira. O que se via no mundo eram crianças, ainda muito jovens, que iniciavam uma rotina árdua de treinamento.

Isso não quer dizer que uma criança de 4 ou 5 anos não possa praticar atividade física, iniciar a prática de uma modalidade esportiva ou vivenciar situações competitivas. Muito pelo contrário, as crianças nesta faixa etária deveriam iniciar uma rotina de atividades físicas de modo que recebessem o máximo de estímulos possíveis (FIMS, 1997; LÈGLISE, 1998; MARQUES; OLIVEIRA, 2002).

Entretanto, o que poderíamos considerar abusivo é o fato de submeter crianças, que se encontram em um período tão sensível, às condições estressantes de um treinamento esportivo e de competições, organizadas por adultos (MARQUES; OLIVEIRA, 2002).

Infelizmente, esse tipo de procedimento ainda é muito comum. Embora vários estudos científicos tenham alertado para os riscos da exposição de crianças a uma carga de treinamento intensiva, muitos técnicos e pais insistem em torná-las miniaturas de atletas (MALINA; BOUCHARD, 1991; SOBRAL, 1993). Para conter a precocidade na Ginástica Artística, a Federação Internacional de Ginástica elevou, de 14 para 16 anos, a idade mínima de participação nos torneios oficiais por ela promovidos (Campeonato Mundial e Jogos Olímpicos), com projeto para aumentar a idade para 18 anos. Mesmo assim, existem países que tentam burlar essa regra, adulterando a idade de suas ginastas.

Os estudos, principalmente no âmbito da biomecânica, têm constatado a vantagem na execução das habilidades quando a massa do corpo é pequena e o centro de gravidade é mais baixo (CALDARONE et al, 1986; CORTE-REAL, 1997). De acordo com Richards et al (1999), por apresentarem certas características anatômicas, como pequenas dimensões e grande proporção de força, as ginastas apresentam maior facilidade na condução da massa corporal durante as habilidades complexas de rotação.

Ao mesmo tempo, as investigações da área médica têm comprovado os prejuízos, principalmente do sistema músculo esquelético, de uma iniciação esportiva precoce (MALINA; BOUCHARD, 1991; THEINZ et al, 1993; KARAM; MEYER, 1993). Mas será que uma medalha e alguns segundos de glória sobre o pódio valem mais do que uma vida longa e saudável? Qual seria o desejo real das crianças ao iniciarem na Ginástica Artística? Seria a medalha? Seria o primeiro lugar? Ou seria o prazer por conseguirem superar um desafio e realizar um movimento novo? Será que os técnicos e os pais não poderiam esperar pelo amadurecimento e prontidão das crianças para que elas tivessem condições de suportar a carga intensiva do treinamento?

O que gostaríamos de sugerir neste ponto de vista é que a criança pode iniciar suas primeiras experiências no âmbito da GA. Entretanto, o foco do ensino deveria ser a exploração livre das possibilidades de movimento nos mais variados equipamentos. Torna-se importante ressaltar que, nestes momentos iniciais, nenhuma regra, a não ser aquelas relacionadas à segurança, deveria ser imposta. Ao traduzirmos em atividades práticas, isto significa que a criança poderia andar sobre uma paralela simétrica, suspender-se em uma trave de equilíbrio, fazer uma posição estática no cavalo com arções, apoiar seus pés nas argolas e balançar, entre outras atividades que extrapolem os estereótipos determinados por esta modalidade esportiva competitiva, mas que produzam uma sensação de prazer pela realização e superação do desafio.

Referências

CALDARONE, G.; LEGLISE, M.; GIAMPIETRO, M.; BERLUTTI, G. Anthropometrics measurements, body composition, logical maturation and growth predictions in young female gymnasts of high agonistic level. Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, Torino, v. 26, n.3, p. 263-273, 1986

CORTE-REAL, A. O talento em Ginástica Desportiva feminina. Revista Horizonte, Lisboa, v. 13, n. 76, p. 14-17, 1997.

FÈDERATION INTERNATIONALE DE MÉDICINE SPORTIVE – FIMS. Treinamento físico em crianças e adolescentes. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, São Paulo, v.3, n.4, p.122-124, 1997.

KARAM, F. C.; MEYER, F. Influência do esporte na fase de crescimento e maturação do esqueleto. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, São Paulo, v. 3, n. 3, p. 79-81, 1993.

LÉGLISE, M. Limits on young Gymnasts’involvement in High-level Sport. Technique, Indianapolis, v.18, n.4, p. 8-14, 1998.

MALINA, R. M.; BOUCHARD, C. Growth, maturation and physical activity. Champaign: Human Kinetics, 1991.

MARQUES, A. T.; OLIVEIRA, J. Esporte e atividade física: interação entre rendimento e saúde. In: BARBANTI, V. J.; AMADIO, A. C.; BENTO, J. O.; MARQUES, A. T. O treino e a competição dos mais novos: rendimento X saúde. Barueri: Manole, 2002. p. 51 –78.

RICHARDS, J. E.; ACKLAND, T. R.; ELLIOTT, B. C. The effect of training volume and growth on gymnastics performance in young women. Pediatric Exercise Science, Champaign, v. 11, n.4, p. 349-363, 1999.

SOBRAL, F. O estado de prontidão desportiva – uma questão crucial do desporto infanto–juvenil. Revista Horizonte, Lisboa, v. 10, n. 58, p. 133-137, 1993.

STAUB, M. La talla de las gimnastas. Trad. de Héctor V. Morel. Stadium, Buenos Aires, ano 20, n. 119, p. 15-18, 1986.

THEINTZ , G. E. et al. Evidence for a reduction of growth potential in adolescent female gymnasts. The Journal of Pediatrics, Danvers, v. 122, n. 2, p. 306- 313, 1993. 



Myrian Nunomura, Mariana Harumi Cruz Tsukamoto

Universidade de São Paulo 

Revista Motriz, Rio Claro, v.9, n.2, p. 127 - 128, mai./ago. 2003

Foto: divulgação