Recordistas De Brasília Temem Que Anulação De Marcas Chegue Ao Brasil

É de Taguatinga um dos dois brasileiros campeões da modalidade mais tradicional das Olimpíadas. No atletismo, Joaquim Cruz (na foto acima, nos anos 80) ganhou o ouro nos 800m dos Jogos de Los Angeles-1984 e a prata na mesma prova, em Seul-1988. Aos 54 anos, o ex-fundista segue sendo dono de dois recordes brasileiros e dois sul-americanos: nos 800m e nos 1.000m. As marcas, porém, podem ser apagadas em agosto — coincidentemente, quando completam 33 anos —, mesmo sem que ninguém as tenha ultrapassado. A Federação Internacional de Atletismo (IAAF) cogita anular todos os recordes mundiais estabelecidos até 2005. Caso a conduta seja reproduzida no Brasil, uma borracha será passada sobre 41 feitos nacionais.

A medida foi colocada em pauta devido à dimensão que os escândalos de doping tomaram no atletismo mundial. Apresentada pela federação europeia da modalidade, a proposta visa certificar que as marcas históricas tenham sido estabelecidas em condições de alto nível, que o atleta tenha sido submetido a um número determinado de testes nos meses anteriores ao recorde, e que a amostra colhida seja passível do controle por até 10 anos após ser coletada. "Recordes não têm sentido se as pessoas não acreditarem neles", argumenta o presidente da entidade europeia, Svein Arne Hansen, que recebeu a aprovação do presidente da IAAF, Sebastian Coe.

Os atletas, porém, não tiveram o mesmo entendimento. "Não é correto apagar os resultados e a história dos atletas que sempre lutaram para manter o esporte limpo e justo para todos", indigna-se Joaquim Cruz. As passadas do campeão olímpico, dentro e fora da pista, sempre foram acompanhadas do discurso contra o doping. "Concordo com a proposta de anulação de todos os recordes dos atletas que testaram positivos por substâncias ilegais. Temos de punir severamente e de forma isolada os atletas que foram provados que usaram doping", crava. "Mas acredito que não são todos os que tentam usar substâncias ilegais para tirar vantagens."

O campeão olímpico Joaquim Cruz adverte que "sempre haverá tentativas por parte de atletas, treinadores, dirigentes e patrocinadores de cortar caminho e tentar burlar o sistema ao custo de fama, dinheiro e medalhas". Para ele, a maneira efetiva de melhorar a imagem do atletismo é seguir o exemplo da IAAF, que baniu toda a equipe de atletismo da Rússia dos Jogos Olímpicos do Rio e toda a delegação dos Jogos Paralímpicos. "Ações decisivas como essas vão transmitir uma mensagem de tolerância zero com o uso de substâncias ilegais para a nova geração de atletas de todo o mundo."

A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) ainda não se posicionou sobre o projeto, a ser votado em agosto. Questionada pelo Correio, a entidade disse que o presidente, José Antonio Martins Fernandes, ouviria a área técnica antes de tomar uma atitude. A assessoria da CBAt, no entanto, adiantou que o "assunto é importante, merece estudos e debates", além de confirmar que "a Confederação Sul-Americana de Atletismo (Consudatle) também iniciou estudos sobre o tema".

Apreensão dos heróis de Brasília

Caso a proposta de anular recordes anteriores a 2005 seja aprovada em agosto e aplicada no Brasil também, quase metade (48,8%) das 84 marcas nacionais vão virar pó. Entre os mais prejudicados, estão dois brasilienses. De Sobradinho, Carmem de Oliveira cultiva os melhores tempos do país em cinco provas: 10 mil metros e corrida de rua nos 5km, 10km, 15km e 30km, estabelecidos entre 1992 e 1994. Para a ex-fundista, o problema não se restringe a retirar o nome dela do quadro de façanhas. "Ter recordes que ultrapassam duas décadas para um país que sediou dois Pan-Americanos e uma Olimpíada, todos com perspectivas de construir um legado esportivo, chega a ser uma vergonha", critica.

Carmem de Oliveira não acredita que a proposta de anular os recordes ajude a "limpar" a modalidade. "É mais fácil apagar a história do que mudar o doping no mundo", admite a ex-atleta, que também veria o nome apagado de três marcas sul-americanas mantidas até hoje. Aos 51 anos, a brasiliense de Sobradinho alerta que a proposta não vai alterar os rumos que a dopagem tomou no sistema desportivo: "Isso é um paliativo, não muda em nada a situação".

Dos 38 recordes do atletismo feminino brasileiro, 18 foram estabelecidos há pelo menos 12 anos e, assim, podem ser anulados caso a proposta da federação europeia seja aprovada e o país a adote. Entre os homens, 23 das 46 marcas nacionais podem sumir do dia para a noite. Quatro delas são de Hudson de Souza, nascido na capital federal. Também de Sobradinho, o agora professor de atletismo não escondeu a frustração ao saber da possibilidade de ter os quatro recordes nacionais apagados: "É uma injustiça fazer isso, porque o doping vem desde muito antes", dispara, em entrevista ao Correio.

Para Hudson, o doping é uma mancha na carreira de qualquer atleta, assim como pode se tornar uma mácula numa modalidade. "Então, uma atitude dessa (de anular recordes) não tira isso, não acho que conseguiria reconquistar a confiança e a credibilidade", adverte. Para ele, a cobrança deveria aumentar sobre as federações dos países para que, em vez de proteger os próprios atletas, intensificassem o controle e as punições. Melhor seriam ações voltadas para desenvolver o atletismo do que apagar a história.

Trapaça até com aval de governo

O atletismo vive anos dramáticos com a exposição de casos sistemáticos de doping. Os flagrantes recentes de trapaça mostraram uma dimensão tamanha que motivaram a punição mais dura já vista na história do principal evento multiesportivo do mundo: o banimento da delegação de atletismo russa dos Jogos Olímpicos do Rio-2016 e de todas as modalidades dos Jogos Paralímpicos do mesmo ano.

A atitude foi tomada após a comprovação de fraudes patrocinadas até pelo governo russo para acobertar atletas dopados nos Jogos de Londres-2012. A mancha, no entanto, só aumenta. Novas análises apontaram mais de 100 casos de doping em exames feitos nos Jogos de Pequim-2008 e de Londres-2012. Um dos motivos para que a proposta de anular todos os recordes mundiais seja até 2005 é que foi a partir desse ano que a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) passou a armazenar amostras coletadas dos atletas para poderem ser avaliadas tempos depois.

O banimento da Rússia das competições internacionais segue vigente e promete deixar uma das principais potências do atletismo fora do segundo evento mais importante da modalidade, o Mundial de Londres-2017. Sobre os novos flagrantes em análises de Jogos Olímpicos anteriores, as sanções divulgadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) também estão em vigor.


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Foto: arquivo CB/D.A Press