Ele Não Monta A Cavalo, Mas Escreverá História Inédita Para Hipismo Brasileiro Na Rio 2016

Ainda que falte meses para a Rio 2016, uma coisa é certa: as disputas do hipismo serão memoráveis para o esporte olímpico brasileiro. E não apenas porque Rodrigo Pessoa poderá chegar a sua sétima Olimpíada, deixar para trás o iatista Torben Grael e o mesatenista Hugo Hoyama e se isolar como o atleta do país que mais edições dos Jogos disputou.

A história será escrita de forma inédita também por alguém que nem monta (mais) a cavalo. Afinal, Guilherme Jorge será o primeiro brasileiro na história a ocupar o posto armador oficial de percurso - o course-designer - na história dos Jogos Olímpicos.

O campinense de 48 anos irá a sua quinta Olimpíada, mas a próxima será a primeira em que assumirá tamanha responsabilidade. Em 1996, 2004 e 2012, ele atuou como armador-assistente e, em 2000, trabalhou como comissário da Federação Internacional de Hipismo.

A atividade foi uma alternativa que encontrou para seguir no esporte, já que ele foi cavaleiro até a categoria (de 14 a 18 anos). Além da experiência em eventos olímpicos, ele também foi o responsável por armar o percurso no Pan do Rio de Janeiro em 2007 e também de finais de Copa do Mundo.

O hipismo nos Jogos Pan-Americanos, por sinal, ocorreu no mesmo local em que acontecerá as provas do evento do ano que vem, o Centro Olímpico de Hipismo, localizado no Parque Olímpico de Deodoro (bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro).

Em entrevista ao ESPN.com.br, Guilherme Jorge explicou sobre sua função, o impacto da experiência que teve como atleta na armação de circuitos e a preparação para sua missão na Rio 2016. Confira:

Como é lidar com essa sensação de fazer história nos Jogos Olímpicos?

Vai ser minha quinta Olimpíada, fui a quatro como parte da equipe dos armadores de pista, como assistente. É a primeira ir vez que vou ser o responsável, pode comparar a emoção com a do atleta, sem duvida é uma honra muito grande. É uma chance de mostrar a qualidade do hipismo brasileiro e de ter um desenhador brasileiro fazendo o percurso

O que mudou na preparação em relação à posição que ocupou em outros Jogos Olímpicos?

Agora tenho a responsabilidade também de desenhar os percursos, desenhar os obstáculos. Eu tenho uma equipe que está me ajudando a fazer isso, obviamente. Preparamos tudo, desde os desenhos dos obstáculos, que serão temáticos, contando a história e cultura do Brasil. Procuro estar presente nos principais eventos equestres, fui aos Jogos Mundiais no ano passado, estive na Olimpíada de Londres, final de Copa do Mundo, e também preparando percursos em diversos países da América do Norte e Europa. Esse contato vai me ajudar a acertar e tentar chegar na Olimpíada com o nível adequado de dificuldade dos percursos.

Como funciona o passo a passo para desenhar um percurso? Quanto você tem de liberdade para agir?

Nas provas de saltos, cada vez que o competidor entra na pista ele vai enfrentar um percurso diferente, é uma peculiaridade do hipismo. O cavaleiro entra a pé - o cavalo não vê - faz o reconhecimento do percurso, vai ver distâncias entre obstáculos, as curvas, como vai conduzir o cavalo. Nós, como desenhadores de percurso, temos os diversos níveis, e nas Olimpíadas as exigências técnicas são maiores, temos os parâmetros da Federação Internacional. El, juntp com o Comitê Olímpico Internacional, traça o formato e exigências técnicas da competição olímpica. Na Olimpíada, a altura máxima dos obstáculos são 1,6m e a largura máxima pode ir até 2m, 2,20m e temos o salto em distância, sobre o rio (como é conhecido na linguagem hípica). Tenho os parâmetros de altura e largura dos obstáculos, as distâncias entre os obstáculos, que são baseados no tamanho das passadas dos cavalos. Temos obstáculos duplos e triplos, que são os que eles saltam dois seguidos com uma ou duas passadas entre eles. Existem padrões. Procuramos testar o cavaleiro, testar a habilidade dele de controlar o seu cavalo e o treinamento que ele fez para o cavalo ficar obediente daquela maneira. Felizmente, temos uma liberdade muito grande. Por exemplo, a distância base de um duplo de uma passada vai variar de 7,7m a 8,4m. Varia uma série de coisas. Tenho uma flexibilidade dependendo de como eu combinar. Temos uma participação muito efetiva no desenrolar da competição. Saltei até a categoria Junior, até ir para a faculdade, foi uma maneira que encontrei de estar participando ativamente no esporte, e felizmente cheguei a um nível alto do esporte.

Precisa de experiência como atleta para ser um armador de percurso?

Não necessariamente, mas ajuda muito. Gostaria de ter tido mais experiência. Procurei suprir essa deficiência de não ter tanta experiência trabalhando como assistente, procurando estar presente nos eventos principais, escutando opiniões dos cavaleiros sobre meus percursos

É necessário jogo de cintura para lidar entre pedidos de cavaleiros, federação e o COI?

Tem que ter imparcialidade, fazer o melhor ao evento, ao esporte. Aprendemos como o tempo identificar o que é um pedido correto do cavaleiro. Às vezes acontece que você exagera em uma questão, muitas vezes você só vê o que acontece quando a prova começa. Estou sempre aberto a opiniões dos cavaleiros, e vamos aprendendo a selecionar o que é uma reivindicação correta ou se não é o cavaleiro que tem um cavalo que não é o adequado. Tenho mais de 20 anos aprendendo, trabalhando com armação de pista. Normalmente é tranquilo a relação com os cavaleiros. Tempos um relacionamento bom.

Já entrou em contato com pessoas que foram armadores olímpicos, pretende fazer isso?

Tenho bastante contato, muitos foram meus mentores. Eu vou ter na minha equipe o Leopoldo Palacio, que foi responsável por 2000 e 2008. Eu estou sempre em contato com eles, temos um grupo de desenhadores que está sempre conversando, e com certeza eu vou trocar ideias com eles. A Federação Internacional tem um delegado técnico, que no meu caso é um espanhol chamado Santiago Varela, que vem sempre para São Paulo fazer os percursos na Copa São Paulo e é um desenhador de percurso com bastante experiência. Vamos trabalhando juntos para chegar com o melhor resultado.

Como você lida com o fato de conseguir um feito importante, mas não ficar tanto em evidência?

Nós, como armadores de percurso, podemos nos comparar como o cenógrafo no teatro, ou como o coreógrafo. Estamos preparando o palco para os atletas brilharem. Não é só o desenhador de percurso, tem uma infinidade de outros oficiais, existe toda uma equipe muito grande de apoio.