Os Métodos De Treinamento Que "destroem" Os Jogadores

À primeira vista, parecia que o treinador do Arsenal, Arsene Wenger, havia finalmente encontrado a luz, dando àqueles seus jogadores que disputaram a EURO-2016 ou a Copa América um descanso extra, o que seria mais do que lógico.

Ao dar às suas estrelas da EURO e Copa América o mesmo período de descanso de 4 semanas que tiveram todos os outros jogadores, ele permitiu-lhes recuperar a sua “frescura” (tradução literal do termo freshness, mas que melhor se traduz para o nosso contexto futebolístico como “estar descansado, recuperado, estado de não fadiga, estar inteiro…”) antes da pré-temporada. 

No entanto, agora parece que Wenger quer acelerá-los na volta aos treinos, pois quer treinar muito em pouco tempo após essas 4 semanas de descanso.

O erro de Wenger 1:

Sanchez e Ramsey, por exemplo, irão desenvolver a aptidão de forma relativamente rápida, resultando no condicionamento de curto prazo que, infelizmente, não dura por toda a temporada. Jogadores que desenvolvem a chamada “aptidão/condicionamento de curto prazo”, ao final da temporada verão seu condicionamento declinar e ainda aumentarem consideravelmente o risco de lesões.

O erro de Wenger 2:

Como Sanchez e Ramsey vão treinar muito (volume) em pouco tempo na pré-temporada, conseguirão desenvolver seu condicionamento, mas consequentemente perderão o seu estado de frescor/descanso/não fadiga. O que Wenger deveria fazer é desenvolver o condicionamento dos jogadores, mas ao mesmo tempo mantendo os sempre inteiros, descansados, pois jogadores fadigados, já está comprovado, sofrem um maior risco de lesões.

O segredo de uma pré-temporada de sucesso está em distribuir, de modo equilibrado e criterioso, o trabalho de ganho de condicionamento ao longo de 6 semanas, em vez de concentrá-lo quase todo nas 2 primeiras semanas.

Distribuir o treinamento de aquisição ao longo de 6 semanas, resultaria em jogadores mais adaptados, menos fadigados, sem lesões e aptos a realizarem todas as sessões de treino de desenvolvimento do modelo de jogo da equipe! 

Treinadores muito inteligentes como Conte (Chelsea) & Klopp (Liverpool) também estão destruindo os seus jogadores por buscarem a aquisição de condicionamento muito rápido/muito cedo, com sessões duplas e até mesmo triplas de treinamentos durante a pré-temporada, o que sem dúvida acarretará 3 fases distintas que explico abaixo:

1) Fase de acumulação de fadiga, 2) Fase de lesão, 3) Fase crítica de lesões.

Fase 1: Acumulação de fadiga.

Jogadores serão submetidos ao overtraining por conta das muitas sessões de treinamento e o pouquíssimo tempo entre as mesmas para uma plena recuperação. Qual foi o “Einstein” que inventou de fazer 2-3 sessões por dia com jogadores relativamente fora de forma logo após as férias?! Como os jogadores, inevitavelmente, entram em fadiga, os treinadores, na verdade, acabam colocando-os em situações de risco por só serem capazes de jogar um futebol lento e sem precisão/qualidade na pré-temporada.

Fase 1 -> Fase 2: Depois de serem submetidos ao overtraining nas primeiras 2 semanas, os jogadores, já cansados, agora terão pela frente os jogos amistosos, que significam um risco de lesões significativamente maior.

Fase 2: Fase de lesões.

Como os jogadores, com essa carga excessiva de treinos, perderam o frescor/descanso nas primeiras semanas, agora terão que jogar os amistosos com sua coordenação motora prejudicada. Essa fadiga acumulada resulta em um sistema nervoso mais lento. Os sinais a partir do cérebro para os músculos viajam mais lentamente, resultando em menos controle sobre o corpo. Estes jogadores cansados e com menor coordenação motora tem ainda que fazer ações explosivas máximas em jogos amistosos, resultando em falhas ou respostas atrasadas dos mecanismos de propriocepção, daí que mais e mais lesões acontecerão nas semanas 3-4 da pré-temporada.

Fase 2 -> Fase 3: Após as primeiras lesões na semana de 3-4, os treinadores serão incapazes de perceber como parar o círculo vicioso de modo que este padrão de lesões já iniciado irá evoluir para uma crise de lesões na semana 5-6.

Fase 3: Fase crítica de lesões.

Os treinadores veem as primeiras lesões como mera má sorte ou apenas como parte natural da pré-temporada, portanto, o problema não será resolvido. Consequentemente, mais lesões surgirão em breve devido a este círculo vicioso. À medida que mais e mais jogadores se machucam o grupo apto a treinar fica menor… -> Assim, todos os exercícios se tornam mais intensos devido ao menor número de jogadores… -> Ou seja, gerando ainda mais fadiga… -> Pois mais lesões levam a uma equipe menor… -> Pois jogadores já cansados ficam ainda mais minutos em treinos/jogos… -> Ainda mais fadiga e mais lesões… Está aí o círculo vicioso instalado!

Nesta fase do calendário europeu (início de Agosto, ainda pré-temporada), a maioria das equipes está agora quase terminado a fase 1 (acumulação de fadiga) e em breve entrará na fase 2, em que os primeiros jogadores vão se lesionar.

Em cerca de 2 semanas as primeiras equipes vão entrar na ‘fase crítica de lesões’ (fase 3). Já se pode prever que todos estes treinadores culparão fatores externos em vez de se olharem no espelho e assumirem suas responsabilidades pelos erros mencionados acima.

Enquanto isso, pergunte a si mesmo: por que nós, hoje em dia, não voamos mais em aviões de 50 anos atrás, mas esses treinadores inteligentes ainda treinam como há 50 anos atrás? Detalhe: São treinadores famosos de times de ponta do futebol mundial!


Futebol Pensado

CEPERF • por Raymond Verheijen,

traduzido e adaptado por Francisco Ferreira

Foto:  divulgação