Torcida única: Não Há Futebol Possível Com Apenas Uma Cor

Por muitas razões, o Rio de Janeiro sempre representou uma espécie de estereótipo do que nos acostumamos a entender como futebol brasileiro. O combo praia, carnaval e futebol seduzia não apenas os estrangeiros, mas os próprios brasileiros alheios àquela realidade, quase todos – de Jaguarão a Parintins, o maravilhoso e caótico purgatório era encarado como uma terra prometida banhada por sol, caipira e toque de bola faceiro. Na épica década de 90, quando o futebol era mais futebol do que é hoje, uma tarde de clássico no Maracanã parecia espalhar por todo o país outros brilhos e outras cores que não apenas aquelas das camisas envolvidas. Um Fla-Flu em um domingo de sol parecia a máxima instância a ser alcançada em termos de “brasilidade”. 

Agora, o futebol carioca caminha de forma convicta para a irrelevância, assim como em vários outros grandes centros do Brasil. Não enquanto jogo, resolvido dentro do campo, mas no âmbito cultural, que atinge diretamente a sociedade, o torcedor. Antes de continuar, uma confissão: sou daqueles que ainda vivem sob o efeito inebriante de uma tarde de clássico no Maracanã filtrada pela televisão, pois nunca entrei no velho templo antes da transformação que o maculou para todo o sempre. Quando tive a oportunidade de ingressar, já depois da reforma, simplesmente não quis. Em uma tarde de calor enervante durante um passeio qualquer, sem jogo, me detive na rampa. Faltou vontade e sobrou a insana certeza de que entrar lá seria uma traição ao antigo monumento e, especialmente, às memórias afetivas, coisa com a qual não se pode brincar. 

A liminar que obriga a realização dos clássicos cariocas com torcida única, que forçou a bizarra transferência da semifinal da Taça Guanabara entre Flamengo e Vasco para JUIZ DE FORA (apenas por ocorrer fora do Rio de Janeiro será possível ter ambas as torcidas), é mais um passo largo rumo ao abismo que o futebol brasileiro se esforça para olhar bem de perto. Abismo que reflete os problemas que acometem a sociedade, como é comum acontecer com o futebol, que não é uma ilha. Um jogo com torcida de apenas um time não significa apenas a falência do futebol enquanto manifestação cultural, mas sublinha a incompetência em se resolver flagelos sociais, como a insegurança. A lógica em se decidir por torcida única é a mesma de aconselhar a população a não sair de casa à noite em vez de oferecer segurança e iluminação em ruas e praças (e, antes disso, se preocupar com educação e igualdade social). É um pensamento tacanho, acomodado e retrógrado que tenta recuperar uma casa comida pelo cupim com uma demão de verniz. 

A convivência de duas torcidas na arquibancada é um incentivo à civilidade – desde pequeno, é preciso se acostumar a conviver com pessoas com preferências diferentes das nossas, tendo a noção de que o mundo não é composto por apenas uma cor. Também é responsável por forjar caráter, afinal de contas apenas um guri que já viu a torcida rival comemorar dentro do seu estádio pode se considerar preparado para as reais dificuldades que a vida vai lhe salpicar pelo caminho. Quando as noites estão bem silenciosas, ainda consigo ouvir o estampido da torcida gremista, que parecia querer rachar o concreto do Beira-Rio no primeiro Gre-Nal que presenciei no estádio, em 1992, quando ALCINDO empatou o placar cobrando pênalti. Não existe aflição maior que aquela fração de segundo que separa o momento em que as redes do teu goleiro são balançadas da chegada do som, que, sabemos, está a caminho, comendo o ar, implacável como um cavalo que jamais vai se deixar domar. 

Hoje, apenas algumas centenas de torcedores são responsáveis por lapidar o caráter dos adversários no clássico gaúcho. O som ainda machuca, mas é muito mais ameno, e já não existe a aterradora imagem de um terço do estádio tomado pela cor que nunca será a nossa, gargantas ansiosas por enterrar nossos sonhos em alguma tarde fatídica e mostrar que no meio do caminho sempre haverá uma pedra, um Petkovic, uma nuca do Pedro Júnior. O caminho imposto pela justiça carioca é simplista e se encarrega de terraplanar sentidos e simbolismos, pois priva o torcedor de uma experiência de convívio social que para muitos é a primeira e será sempre a mais importante e recorrente, enquanto oferece em troca algo que é tudo, menos o futebol que realmente vale a pena ser vivido.


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