As Cinco Peças-chave Por Trás Da "máquina De Vencer" Roger Federer

Roger Federer pode ser um gênio, mas o sucesso não seria o mesmo sem o necessário empurrão da equipe. Aos 36 anos, ele segue brilhando graças a um time unido com cinco peças fundamentais. Cada um tem a sua função, e juntos são o segredo por trás da máquina de títulos que é Federer. Conheça o responsáveis que fazem com que o vencedor de 20 Grand Slams siga brilhando e se reinventando mesmo após 20 anos de carreira profissional.

- Eu posso fazer muito sozinho, mas preciso do apoio do meu time para me empurrar aqueles último 1%, 5%, 10%, ou o que for, porque não tenho a mesma disposição todo dia - disse o hexacampeão do Aberto da Austrália.

1. Pierre Paganini - preparador físico

- Uma grande parte da razão por eu estar onde estou hoje é definitivamente graças ao Pierre (Paganini) - resumiu Federer em entrevista ao New York Times, em setembro de 2017.

Imagine um senhor de 60 anos, de óculos e careca que poderia ser seu tio. Mas não, ele é o escultor responsável por deixar o corpo de Federer em forma para competir com rivais até 15 anos mais novos. Professor de educação física, queria trabalhar com futebol. Isso mesmo. O tênis entrou na sua vida por uma chance que lhe surgiu de treinar tenistas juvenis no Centro Nacional da Federação Suíça de Tênis, em 1985. Trabalhou com os principais tenistas suíços, como Marc Rosset, número 9 do mundo em 1995. Cinco anos depois, aceitou o desafio de se juntar a equipe do talentoso jovem Federer, que não era tão disciplinado.

- Ele (Pierre) fez meus treinos físicos agradáveis, se é que isso é possível. Eu só o sigo. Qualquer coisa que ele me fala, eu sigo porque eu confio nele - contou o hexacampeão do Aberto da Austrália - completou o pai de dois casais de gêmeos.

O primeiro contato com Federer, na verdade, foi quando o garoto tinha ainda 14 anos e sequer havia passado daquela fase da rebeldia representada pelo cabelo pintado de loiro e até pela fase vegetariana. Para trazer o interesse e a total dedicação do jovem suíço, passou a fazer treinos mais criativos sempre que possível, inclusive jogando outros esportes como basquete. Além disso, também trabalha com Stan Wawrinka. Mas depois de acompanhar Federer durante toda a carreira, ele não planeja trabalhar com novos talentos. Pelo menos não por enquanto.

O principal foco de trabalho foi a “explosão” para que Federer pudesse acelerar e alcançar as bolas de seus adversários. Eles passaram por vários desafios durante 18 anos de parceria, mas o maior veio em 2016, quando Federer se submeteu a primeira cirurgia da vida, no menisco. É importante ressaltar a seguinte análise daquele que cuida do corpo de Federer: ele acredita que o esqueleto de Federer é mais jovem do que o comum para a sua idade. Ainda na entrevista ao jornal americano, Paganini contou detalhes do desafio de recuperação, e admitiu que havia dúvidas se era possível Federer voltar a ser campeão novamente.

- Roger sempre foi, desde os 20 anos, interessado em fazer o que ele pudesse para ter uma carreira longa (…) ele trabalhou com o fisioterapeuta (Troxler) por duas semanas, e depois começamos o trabalho físico. No início ele tinha, por exemplo, que correr por cinco metros, e voltava andando de costas. Era como se ele estivesse aprendendo a andar novamente. Você pode ser a pessoa mais positiva do mundo, mas ainda há momentos que você se pergunta, será que ele conseguirá jogar em alto nível novamente? - contou Paganini.

Dificilmente está presente nas finais dos torneios por trabalhar mais no físico com o tenista no início da semana de competições, ou em época que não disputa torneios. Assista ao início do vídeo abaixo, com Paganini e Federer mostrando um treino antes da pré-temporada de sucesso de 2017.

2. Daniel Troxler - fisioterapeuta

"Suas mãos são mágicas”, resumiu Roger Federer no Aberto da Austrália 2017. Se o corpo do vencedor de Grand Slams é esculpido pelo preparador, é fisioterapeuta Daniel Troxtler que faz a mágica e cura o corpo do ex-número 1 do mundo. Nas maratonas em um Grand Slam ou mesmo em dia de treino puxado, é ele que age para que Federer fique “novinho em folha”, aos 36 anos de idade, para competir da melhor maneira possível.

O trabalho do fisio começou em outubro de 2014, quando Federer substituiu Stéphane Vivier (2009-2014). Mas eles não se conhecem de hoje. O primeiro aconteceu em Sydney 2000. o fisioterapeuta conheceu o ainda jovem Roger Federer. Troxtler possui no currículo trabalho na equipe da Suíça pela Copa Davis, inclusive durante a conquista em 2014. Na ocasião, a equipe de Federer teve a missão de deixar o suíço em condição de jogar a final contra a França. 

Dias antes, o suíço sequer entrou em quadra na decisão do ATP Finals devido a um espasmo muscular nas costas. E eles conseguiram. Menos de dez dias depois, Federer conseguiu entrar em quadra para jogar as três partidas (duas vitórias e uma derrota) em que havia sido escalado para anotar a vitória do título sobre Richard Gasquet.

Ex-atleta, Troxler é especializado em fisioterapia esportiva, “agulhamento a seco”, reflexologia nos pés e massagem. Antes de trabalhar com o octacampeão de Wimbledon, participou da equipe do maratonista suíço Viktor Rothlin, bronze no Mundial de Osaka em 2007 e campeão europeu em Barcelona 2010. É difícil encontrar uma entrevista com Troxler, que evita os holofotes. Ao lado de Pierre Paganini, cuidaram da reconstrução do corpo de Federer depois da artroscopia no joelho, em fevereiro de 2016, e principalmente depois de Wimbledon, quando o natural da Basileia se afastou por seis meses das quadras para cuidar do corpo.

3. Severin Luthi (treinador)

Imagine que você tenha a chance de treinar Roger Federer. Sim, uma lenda te pede para treinar. Qual sua resposta? A de Severin Luthi foi não, mas ele eventualmente deu o braço a torcer.

- Ele não queria ser meu treinador por anos. Não queria “ganhar” reputação (por ser meu treinador), mas sempre está aqui para me ajudar o quanto for possível. É um grande amigo, especialmente um grande treinador para mim, caso contrário não estaria aqui. Como um técnico, ele é realmente valioso para mim. Ele conhece minhas sessões de treino muito bem, sabe no que preciso trabalhar. Ele sabe o que me faz feliz ou triste. E ele conhece todos os membros do meu time muito bem, então é crucial para a equipe. Mas não acho que ele tenha o crédito que merece porque não fala muito com a imprensa - disse Federer.

Muito se fala de Ivan Ljubicic, mas a figura de Luthi merece ainda mais crédito. Ex-jogador, atingiu a modesta 622ª posição no ranking da ATP e, sem sucesso, desistiu de jogar aos 20 anos. Em 2005, tornou-se capitão da Copa Davis e, desde 2007, viaja com Roger Federer.

Na verdade, Ljubicic entrou na equipe de Federer graças a Severin Luthi. O vencedor de 20 Grand Slams perguntou a Luthi se poderia treiná-lo sozinho depois da saída de Stefan Edberg da equipe, mas ouviu um “não”.

- O Roger me pediu para que o treinasse sozinho, mas recusei. Temos visto ao longo dos anos que a solução de dois treinadores é a ideal. Ainda tenho a Copa Davis, seria demais. Falamos sobre muitos nomes que poderiam assumir essa função, até que chegamos ao Ivan. O mais interessante nele é o fato de ter se aposentado há pouco tempo, e ainda estar familiarizado com o circuito - revelou Severin Luthi ao jornal “Blick” em dezembro de 2016.

Apesar de ser comumente deixado de "escanteio" até mesmo pela ATP na indicação de técnico do ano em 2017, Luthi viu o amigo e "pupilo" homenageá-lo no Prêmio de Atleta do Ano, em dezembro.

- Parabéns pelo (prêmio) de técnico do ano na Suíça. Foi tão merecido. Tenho sorte de tê-lo em meu time. Você tem sido por anos a "rocha" ao meu lado por anos, obrigado - agradeceu Federer no Twitter.

4. Ivan Ljubicic (treinador)

A substituição de Stefan Edberg por Ivan Ljubicic, em dezembro de 2015, foi uma das escolhas mais estranhas, na época, para os fãs de tênis. Apesar de não ter vencido Grand Slams, Federer conseguiu voltar a finais ao lado do sueco, que possuía um currículo invejável e entrosamento absurdo com o suíço. Faltava um obstáculo, no entanto, superar o então líder Novak Djokovic. Veio decisão de trazer um antigo adversário para seu time.

Colegas no Conselho da ATP, Federer e Ljubicic foram rivais e se enfrentaram 16 vezes, com 13 vitórias para o suíço e três para o atual treinador. Especula-se que ele tenha visto em Ljubicic uma tentativa de enfim derrotar Djokovic, amigo do croata. Além disso, o croata já enfrentou vários outros possíveis adversários do número 2 do mundo, ou seja, sabe como eles jogam. Semanas após o anúncio, o sérvio lembrou que Ljubicic sabia bem sobre seu jogo, assim como os principais atuais rivais de Federer, por ter se aposentado em 2012.

Foi em 2017 que vimos um novo Federer, batendo o backhand com uma precisão absurda, talvez o melhor de sua carreira. Ganhou confiança em um golpe por anos tratado como seu ponto fraco. E passou a usar o slice mais estrategicamente e menos como defesa, algo que fazia com frequência na devolução. O timing impecável permitiu que ele pudesse aproximar da linha de base e cortar o tempo de reação do rival.

Como jogador, Ljubicic não tinha na movimentação o seu forte, mas era um estrategista, enxergava táticas, e tinha um bom saque. Seu backhand era reto e na frente, algo que o seu agora pupilo incorporou. Assim, encorajou que Federer tivesse uma nova visão do tênis mesmo depois de mais de 15 anos de carreira. Quem apostaria em tamanho sucesso nesta parceria?

5. Mirka Federer (esposa)

A lista não estaria completa sem falar de Mirka Federer. Não é segredo que Federer sempre contou com o apoio de sua esposa, mas isso ficou ainda mais claro na nova fase da carreira. O motivo? Foi ela que disse um basta para qualquer incerteza que pudesse passar cabeça do marido.

- Tive uma conversa com minha esposa e apenas perguntei: "O que você acha, eu devo parar? Ela me respondeu "não, de jeito nenhum! Você não vai parar desse jeito, preparando banho para as meninas" – contou Federer no início de 2017.

A história de Miroslava Vravinec e Roger Federer começou como um amor de verão, na Olimpíada de Sydney, em 2000, quando tinham 21 e 19 anos, respectivamente. Ele ainda era temperamental e, desde então, foi ela que ensinou sobre equilíbrio e maturidade. O romance permaneceu em segredo por meses. Federer dizia que o casal não queria exposição, sem revelar a identidade da jogadora, dois anos e meio mais velha. Ao contrário de Federer, Mirka viu seu corpo virar um grande inimigo desde cedo. Tentou a cirurgia, mas não venceu a batalha. Aos 24 anos, se aposentou com lesão no pé.

Foi um período difícil para Mirka, mas ela voltou a participar ativamente da carreira de Federer em 2003. Virou relações públicas e começou a tomar conta da agenda do parceiro. Como todos os membros da equipe, a senhora Federer foge dos holofotes. O motivo é diferente, no entanto. Ela falava tanto que já passou até por maus lençóis quando jogava. A história é bem diferente na torcida. Não esconde as emoções, fica em pé, vibra, reclama… e até chamou Wawrinka de “bebê chorão” naquele icônico momento do ATP Finals 2015.

- Minha mulher faz tudo isso possível. Sem o apoio dela não estaria jogando tênis há muitos anos. Mas temos conversado bem abertamente, se ela estava feliz por fazer isso há alguns anos. Fico feliz que ela me apoia tanto e aceita ficar com um trabalho imenso com as crianças. O mesmo vale para mim, porque eu não conseguiria ficar longe das crianças por mais de duas semanas. Minha vida não funcionaria se ela dissesse não - ressaltou após a conquista do 20º Slam.

A declaração mais marcante de Federer, no entanto, foi há um ano quando lembrou que “Mirka estava lá quando eu não tinha títulos e ainda está aqui, 89 títulos depois”.

E que jornada eles escreveram juntos.

Menção especial: Stefan Edberg (ex-treinador)

Não dá para falar do atual Federer sem apontar seu último treinador, o sueco Stefan Edberg, ídolo de infância do suíço. Mostrou para Federer que o caminho era ser mais ofensivo e até buscar a rede, por mais que o risco fosse alto. E assim começou o processo gradual de encurtar os pontos e até ousar a ponto de surpreender o adversário com um bate-pronto na devolução, o famoso “SABR”.

Por mais que o backhand não estivesse afiado e tenha sofrido contra um completo Djokovic, aos poucos Federer ia se transformando em um novo Federer. Mesmo que não tenha vencido Grand Slams com Edberg no banco, voltou a ficar entre os melhores após uma difícil temporada em 2013. Foi com o sueco que Federer começou a buscar respostas e alternativas para se manter entre os melhores no circuito.

Vale apontar que o sueco discordava da estratégia que Federer adotou na nova etapa da carreira. Edberg acreditava que era melhor para o corpo de um atleta mais velho continuar jogando e treinando, e não tirar longos descansos entre um torneio e outro.

“Eu acredito que, se você joga ofensivo, precisa reagir menos, enquanto que, se você está sempre reagindo ao que o seu adversário faz, é muito difícil. Eventualmente, durante as semana, ao longo do ano ou ao longo de sua carreira, se você está sempre compensando e correndo atrás a bola, isso vai te alcançar“, disse o atual vice-líder do ranking mundial ao "The Telegraph", em 2014.


GLOBO ESPORTE

Break-point

Foto: divulgação