“famílias Crossfit”: Modalidade Atrai Casais, Amigos E Parentes

Com o sucesso de sua unidade do bairro Cristo Redentor, em Porto Alegre, uma academia especializada em CrossFit decidiu abrir um novo espaço no bairro Três Figueiras em 2016. Antes disso, questionou a clientela sobre o que mais os frequentadores gostariam de ter no “box” – a academia, em bom crossfitês – além dos equipamentos de malhação em si.

– Pensamos que venceria algo como lounge, café, estacionamento. Pois a opção mais desejada pelos nossos clientes foi um espaço kids, veja só – conta uma das sócias.

De fato, quando a reportagem visitou o novo espaço, uma menina se distraía pintando desenhos enquanto os pais escalavam pelas paredes. Além dela, um cachorrinho aguardava seus donos tranquilamente amarrado a uma kettlebell (peso em formato de bola, com uma alça).

Já conhecido pelo efeito rápido na forma física dos praticantes, o CrossFit chama a atenção também por seus aspectos sociais. Diferentemente das academias tradicionais, onde o treino é concebido e executado de forma individual, o CrossFit atrai casais, amigos e parentes para praticarem juntos. Lá, novas amizades são formadas entre os praticantes, formando as chamadas “famílias CrossFit”, unidas não só para treinos e competições entre boxes, mas para churrascos, baladas e até veraneios.

Conhecendo a dinâmica do treinamento, fica mais fácil de entender. Segundo os treinadores, os laços se estreitam entre os participantes porque uma parte fundamental da prática é que um incentive o outro, já que a ideia é que todos alcancem seu limite a cada treino.

– Vejo como um resgate da convivência. Na academia, a pessoa está lá com o seu fonezinho de ouvido, fazendo sua selfie no celular. No box, se reforça o grupo. O que acho mais bacana, por exemplo, é que o último a completar o exercício é o mais aplaudido, porque os demais puxam. Se engajam para ajudá-lo a superar – conta Marco Leis, que há dois anos montou outro espaço para CrossFit, em Caxias do Sul.

Embora a prática seja aberta a qualquer idade, o administrador destaca que o CrossFit atrai pessoas em uma fase da vida adulta em que rareiam as oportunidades de fazer novas amizades. Somando isso ao bom poder aquisitivo da maioria dos praticantes, logo aparecem oportunidades de viagens e eventos sociais. Dos 400 metros quadrados da Tchê CrossFit, por exemplo, cem são dedicados a um ambiente com mesão e churrasqueira, onde não raro alunos comemoram aniversários.

Marco chega a comparar o ambiente com um templo, dado o nível de fraternidade e doação dos “fiéis” aos treinos. O que tem efeitos nem sempre 100% positivos, sobretudo para quem não pratica. Desde a constante tentativa de “catequese” de novos praticantes – “Vem aí treinar com a gente” foi a frase mais ouvida durante essa reportagem – até o papo repetitivo nas rodas de amigos.

– Admito que o pessoal do CrossFit fica meio chato para quem é de fora. Porque só fala disso, come pensando nisso… Aí, vira piada. Chegamos nos lugares e uns dizem: “Afe, lá vem o pessoal do CrossFit”. Então a convivência com quem também já pratica vai ficando automática – conta a arquiteta Luíza Vargas, frequentadora há dois anos em companhia do namorado, o engenheiro Marcos Pellizzari.

A administradora Maira Vaz repete o discurso de que a turma do CrossFit não tem outro assunto. Embora o comentário surja mais como galhofa do que uma reclamação:

– Até compartilhei outro dia aquele post no Facebook: “Como se identifica um CrossFitter? Não precisa, ele já chega se identificando”.

Namorado de Maira, o publicitário Alessandro Vieira destaca ainda outro aspecto:

– Nós dois já fazíamos academia juntos, mas nos incomodava a vaidade do pessoal. A mina com a faixinha combinando com a legging, o cara de regatinha com o mamilo aparecendo… No box, não tem como. Tu sai daqui moído. Aí perde a vergonha dos outros, entende? – explica Alessandro, mostrando o braço tremendo e a palma da mão com um machucado prestes a revelar carne viva.

Outra forma peculiar de integração entre os praticantes é o perigo constante de receber pequenas punições, como em um pelotão militar. Atrasos, distrações nos treinos ou outros vacilos acarretam em um determinado número de burpees _ uma combinação de apoio com polichinelo, que eles “pagam” bem sorridentes.

– Se um praticante esquece um equipamento no chão, por exemplo, eu posto no Facebook e a quantidade de curtidas e comentários vai determinar quantos burpees ele vai ter que pagar – se diverte Karine.


CrossFit para os não iniciados:

> CrossFit é uma marca norte-americana que se refere a um treinamento de movimentos funcionais realizados em alta intensidade. Combina elementos de modalidades como ginástica, levantamento de peso, remo, corrida entre outros. Os treinos têm uma hora de duração e são realizados em ambientes amplos chamados de boxes.

> Para usufruir da marca, os profissionais de educação física precisam realizar um treinamento mínimo ministrado sazonalmente no Brasil, obedecer a determinados padrões de qualidade e, depois disso, pagar uma anuidade de US$ 3 mil à marca CrossFit.

> Antes de praticar, convém ter cuidado se a academia tem o certificado da marca. Há outros treinamentos funcionais com características semelhantes ao CrossFit, mas não necessariamente com os mesmos parâmetros de qualidade ou de treinamento.

> No Rio Grande do Sul, há 28 boxes certificados de CrossFit. Sete deles em Porto Alegre e outros sete em demais municípios da Região Metropolitana. No site maps.crossfit.com é possível rastrear cada um.



REVISTA DONNA

Camila Domingues

Foto:  divulgação