Por Que A Perda Rápida De Peso Deve Ser Banida Dos Esportes De Luta?

Há alguns dias saiu a publicação de um artigo científico que escrevi junto com colegas de dentro e fora da USP. Nesse trabalho, defendemos que existe muita similaridade entre lutadores que perdem peso rapidamente (para lutar em categorias que não condizem com seus biotipos) e atletas que fazem uso de recursos ilícitos (ex.: esteroides anabolizantes) para obter vantagem competitiva. 

Nossa intenção com esse artigo era justamente chamar a atenção das pessoas e convidá-las a refletir sob uma perspectiva um pouco diferente sobre essa particularidade dos esportes de combate. Felizmente, o texto ganhou boa repercussão. Neste breve post, tentarei explicar com linguagem simples por que a perda rápida de peso deveria estar na lista de métodos proibidos da Associação Mundial Antidoping (WADA).

Embora estejamos acostumados a associar doping ao uso de drogas ou substâncias que melhoram o desempenho físico, a WADA define que tanto substâncias como métodos podem ser considerados doping, desde que:

1. Tenham potencial para melhorar o desempenho

2. Representem risco à saúde dos atletas

3. Violem o espírito do esporte e quebrem o “fair-play” 

A perda rápida de peso tem sim grande potencial para melhorar o desempenho em lutas. Embora esse seja um assunto controverso, pois alguns estudos demonstram que perder muito peso em pouco tempo pode diminuir atributos físicos, tais como força e resistência, é fácil perceber que um atleta, ao descer algumas categorias de peso, adquire enorme vantagem por enfrentar adversários bem menores e, teoricamente, mais fracos. Assim, mesmo que haja um discreto prejuízo na força ou resistência, tais perdas serão provavelmente superpostas pelas vantagens em se enfrentar adversários com constituições físicas menores.

A perda rápida de peso representa risco à saúde dos atletas. A lista de prejuízos é enorme e inclui desde alterações agudas na função cardiovascular até piora da imunidade e aumento da temperatura corporal. Não existem muitas dúvidas que os procedimentos que os lutadores usam para “cortar peso” não são nem um pouco saudáveis, e existem até relatos de morte atribuídas à perda rápida de peso. 

Por fim, a perda rápida de peso também viola o fair-play e o espírito do esporte, uma vez que obriga todos os atletas a também reduzir peso para competir em igualdade de condições. Pensemos da seguinte maneira: se eu fosse um atleta de levantamento de peso, que chances teria eu de ganhar se apenas um (ou mais) dos meus adversários usasse esteroides anabolizantes? Certamente seriam muito baixas e, se eu quisesse restabelecer a equidade, eu teria duas opções: 1) eu também deveria fazer uso de esteroides ou 2) meu adversário deveria parar de usá-los (como convencê-lo disso é outra história...), ou então retirá-lo das competições. 

Por esse motivo, um controle antidoping eficiente é fundamental para garantir, a todos os atletas, o direito de competir em igualdade de condições sem que seja necessário expor-se ao risco de substâncias e métodos prejudiciais. No caso da perda de peso a lógica é a mesma. Lembro-me dos meus tempos de competidor de judô: eu pesava normalmente 70 kg, mas, pelo menos 1-2 vezes ao mês, tinha de baixar aos -66 kg para competir. Certa vez me perguntaram por que eu não subia de categoria e competia nos -73 kg. A resposta era muito simples: os adversários de compleição física parecida com a minha estavam todos na categoria -66 kg. Na categoria -73 kg, estavam atletas que normalmente pesavam 78-80 kg, portanto maiores e mais fortes. Para continuar enfrentando adversários do meu tamanho não havia outra opção para mim a não ser perder peso

Se ninguém perdesse peso, os mesmos adversários enfrentar-se-iam nas categorias mais pesadas sem que ninguém precisasse passar pelo estresse e correr os riscos da perda rápida de peso. Por outro lado, bastaria que um atleta resolvesse descer de categoria (o que poderia ser entendido como uma vantagem injusta, ou uma trapaça) para que todos os demais tivessem de fazer o mesmo para que a equidade fosse restabelecida. Trata-se de efeito em cascata, em um processo em que todos perdem. Para interromper esse círculo vicioso, parece-me que apenas a “força da regra” seria forte o suficiente.

Um abraço e até a próxima”


Guilherme G. Artioli 

Blog Ciência inForma

Foto: divulgação


Para saber mais:

  • Artioli GG, Saunders B, Iglesias RT, Franchini E. It is Time to Ban Rapid Weight Loss from Combat Sports. Sports Med. 2016 Apr 21. [Epub ahead of print]
  • Mendes SH, Tritto AC, Guilherme JP, Solis MY, Vieira DE, Franchini E, Lancha AH Jr, Artioli GG. Effect of rapid weight loss on performance in combat sport male athletes: does adaptation to chronic weight cycling play a role? Br J Sports Med. 2013 Dec;47(18):1155-60.
  • Franchini E, Brito CJ, Artioli GG. Weight loss in combat sports: physiological, psychological and performance effects. J Int Soc Sports Nutr. 2012 Dec 13;9(1):52.
  • Artioli GG, Franchini E, et al. The need of a weight management control program in judo: a proposal based on the successful case of wrestling. J Int Soc Sports Nutr. 2010 May 4;7:15.
  • Artioli GG, Iglesias RT, Franchini E, Gualano B, et al. Rapid weight loss followed by recovery time does not affect judo-related performance. J Sports Sci. 2010 Jan;28(1):21-32.
  • Artioli GG, Gualano B, Franchini E, et al. Prevalence, magnitude, and methods of rapid weight loss among judo competitors. Med Sci Sports Exerc. 2010 Mar;42(3):436-42