Lactato, O Vilão Que Se Tornou Um Possível Aliado Do Desempenho?

Dores musculares, queimação nos músculos, câimbras. Essas são manifestações comuns entre aqueles que treinam muito, praticam exercícios intensos ou, às vezes, exageram no dose de exercício. Ao se perguntarem porque sentem essas sensações desconfortáveis, as pessoas geralmente pensam em um vilão: o lactato.

O lactato muscular, substância naturalmente produzida em grandes quantidades pelo músculo durante o exercício de alta intensidade como produto do metabolismo energético, foi por muito tempo apontado como um dos grandes causadores da fadiga. No entanto, esse paradigma começou a mudar a partir dos anos 2000 e, atualmente, existem boas evidências de que o lactato não apenas não causa fadiga como também é importantíssimo para manter o exercício de alta intensidade. 

Um bom exemplo da importância da produção de lactato para o exercício são os raros casos de pessoas com deficiência inata de uma enzima chamada lactato desidrogenase, ou simplesmente LDH. Essa enzima é responsável pela produção de lactato nos músculos e, caso a pessoa não possua tal enzima, ela também não produzirá lactato. 

Se o lactato, pois, fosse realmente causa de fadiga e prejudicial para o desempenho, pessoas com deficiência de LDH teriam uma grande vantagem ao realizar exercícios. No entanto, o que se observa é justamente o contrário. Um dos principais sintomas dessa grave doença genética é a intolerância ao esforço físico.

Mais recentemente, alguns pesquisadores começaram a testar se a suplementação de lactato seria uma boa maneira de aumentar a capacidade tamponante (isto é, a capacidade de neutralizar os ácidos produzidos durante o exercício). Por mais paradoxal que pareça, o lactato, antigamente responsabilizado pela acidose muscular durante o exercício, agora vem sendo estudado justamente como agente capaz de atenuá-la. 

O mais interessante é que ingerir lactato realmente aumenta a reserva tampão do sangue. Não que o lactato em si seja um tampão, mas durante sua metabolização ocorre uma redução da quantidade de ácidos no organismo. Por consequência, ocorre também um aumento da quantidade de bicarbonato no sangue, o principal tampão sanguíneo. Em tempo, aumentar bicarbonato no sangue é um dos meios mais eficientes de neutralizar mais ácidos durante o exercício e retardar a fadiga muscular.

Todavia, esse aumento no bicarbonato sanguíneo proporcionado pela suplementação de lactato parece não ser grande o suficiente para retardar a fadiga e promover melhoras no desempenho. Pelo menos é o que mostrou um estudo de nosso laboratório. 

Outros estudos dividem-se ao mostrar nenhum efeito, efeito muito discreto, ou impressionantes 17% de aumento no tempo até atingir a fadiga. Enquanto a literatura não esclarece se ingerir lactato é, de fato, capaz de retardar a fadiga e melhorar o desempenho, vale a lição maior que eles nos deixam: o lactato, definitivamente, não é inimigo do atleta.


Guilherme G Artioli - Blog Ciência InForma

www.cienciainforma.com.br

Foto: divulgação



Ps.: outro recente estudo de nosso grupo confirma que suplementar com lactato não melhora o desempenho em exercícios de alta intensidade. Para quem tiver interesse, é só clicar aqui.   

Para saber mais:

Gladden, LB. Lactate metabolism: a new paradigm for the third millennium. J Physiol. Jul 1, 2004; 558(Pt 1): 5–30.

Robergs RA, Ghiasvand F, Parker D. Biochemistry of exercise-induced metabolic acidosis. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol. 2004 Sep;287(3):R502-16.

Painelli Vde S, da Silva RP, de Oliveira OM Jr, de Oliveira LF, Benatti FB, Rabelo T, Guilherme JP, Lancha AH Jr, Artioli GG. The effects of two different doses of calcium lactate on blood pH, bicarbonate, and repeated high-intensity exercise performance. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2014 Jun;24(3):286-95. doi: 10.1123/ijsnem.2013-0191. Epub 2013 Nov 25.

Camila Lemos Pinto, Vitor de Salles Painelli, Antonio Herbert Lancha Junior, Guilherme Giannini Artioli. Lactato: de causa da fadiga a suplemento ergogênico? Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Vol. 22, No 2 (2014).